Um misterioso elefante no coração de Minas
Publicado em 03/05/2013
 
Trabalhador e muito boa prosa, o mestre de obras Stamar de Azevedo Júnior, de 52 anos, também é artista de mão cheia. A especialidade dele são esculturas em cimento. Suas obras, entre elas uma preguiça gigante e um dinossauro, enfeitam praças da pacata cidade da Região Central na qual nasceu Guimarães Rosa (1908-1967), autor de Sagarana e Grande sertão: Veredas. Mas nenhuma obra de Tazico, como o homem franzino é conhecido por aquelas bandas, chama tanta atenção quanto o imenso elefante que ganha forma num quarteirão da Rua São José, uma das principais de Cordisburgo.

Não é uma escultura qualquer. “Na verdade, é um imóvel em forma de elefante, que deve ficar pronto em março de 2012. Comecei a construí-lo no fim de 2008, com intenção de morar nele, mas muitos visitantes vêm me perguntando se posso alugar. Acho que vou transformá-lo numa pousada. Terá apenas um quarto, que será na cabeça, onde os olhos servem de janelas. Na parte de trás, será o banheiro. Haverá ainda uma cozinha e sala. A obra tem 8 metros e meio de altura e 13,8 metros de comprimento. Gastei, até agora, aproximadamente 130 sacos de cimento e dois caminhões de areia”, detalha.

Ele não esconde o orgulho quando fala de sua última criação, que já se transformou num dos pontos turísticos da cidade, a 85 quilômetros de Belo Horizonte. Pudera: como o paquiderme está no caminho para a Gruta de Maquiné, principal cartão-postal do lugar, com cerca de 10 mil habitantes, os turistas que passam pelo local não resistem à curiosa imagem e muitos sacam suas máquinas fotográficas para registrá-la.

Aqueles que têm tempo para um dedo de prosa com Tazico, pai de cinco filhos e avô de duas crianças, ficam sabendo que a futura moradia foi batizada de Lakshmi, homenagem à deusa da abundância e da prosperidade no hinduísmo. “Trabalho na casa nos fins de semana ou nas folgas e conto com a ajuda de apenas uma pessoa. Também usei gesso e fibra, que formam o marfim da escultura. Na boca, coloquei grama sintética. Para dar mais destaque ao elefante, este barracão bem embaixo dele vai ser derrubado até a próxima semana”, explica.
Alguns moradores de Cordisburgo acreditam que Tazico se graduou em arquitetura. O artista acha graça. “Estudei só até a quinta série ginasial (atual ensino fundamental). Porém, garanto que sou mestre de obras dos bons. Exerço o ofício desde os 14 anos. Não é fácil, mas preciso me manter. Aliás, preciso dizer que o fazendeiro Alberto Ramos e minha mãe me ajudam financeiramente na obra. Se não fossem eles...”, diz o homem, que divide sua arte com a árdua tarefa da construção civil.

O dom de criar animais com cimento, fibra e gesso começou a aflorar em 2000, quando a prefeitura da cidade encomendou ao mestre de obras um “minizoológico pré-histórico”, em alvenaria, para a arborizada Praça Otacílio Negrão de Lima. Meses depois, “nasceram” um tigre dente de sabre, uma preguiça gigante, um mamute e um enorme tatu.

O espaço foi batizado de Zoológico de Pedra Peter Lund. O dinamarquês Lund (1801-1880) é personagem de um capítulo especial na história no Brasil. Foi ele quem comandou as primeiras expedições a dezenas de grutas na região de Cordisburgo e Lagoa Santa. Seu pioneirismo e suas descobertas lhe garantiram lugar na história como o pai da paleontologia brasileira, que entre outras explorou a Gruta de Maquiné. Hoje, o local é o principal ponto turístico de Cordisburgo, que também tem entre suas atrações o Museu Casa Guimarães Rosa, onde nasceu o escritor, hoje transformado em centro de referência de sua vida e obra.

Expectativa

“Quem sabe algum dia essas esculturas também sejam tão valorizadas quanto os outros atrativos da cidade?”, deseja Tazico, enquanto cumprimenta uma fã. Trata-se da recepcionista Iara Laíse Moreira, de 21. “As obras dele são maravilhosas. Podem ajudar a atrair mais turistas para cá”, elogia a amiga. Tazico agradece as palavras com a mão no coração, palavra que compõe o nome do município que acolhe sua obra: cordis, em latim, significa coração, e burgo, em alemão, vila ou cidade, dando origem à “cidade do coração”.

Fonte: Estado de Minas
 
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